30/07/2026 09:59

Pelos Caminhos do Impressionismo

Viajando pela França e pintando nas cidades onde viveram Grandes Pintores do Impressionismo e Pós-Impressionismo

Pelos Caminhos do Impressionismo
Em maio de 2026 iniciei uma série de viagens pela França para conhecer e vivenciar a pintura ao ar livre nas cidades por onde passaram grandes nomes da pintura de paisagem. A rota foi inspirada principalmente pelos artistas do movimento impressionista, mas também por seus precursores, da Escola de Barbizon, e por Vincent van Gogh, um dos principais representantes do Pós-Impressionismo. Todos eles tinham algo em comum: a paixão por pintar diretamente diante da natureza.
Nossa rota começou em Paris, seguindo para Giverny, a cidade onde Claude Monet viveu por mais de 43 anos, explorando paisagens que hoje podem ser admiradas em algumas das obras mais famosas da história da arte.
Giverny fica a cerca de 1h30 de Paris. Fizemos o trajeto de trem até Vernon e, de lá, seguimos de ônibus em uma viagem super tranquila. A cidade é pequena, com pouco mais de 400 habitantes, e encanta pelas ruas floridas, casas de pedra e pela tranquilidade que parece ter parado no tempo. Não é difícil entender por que Monet escolheu viver ali.
Encontramos um cantinho perfeito para pintar, em uma rua charmosa, em um cruzamento cercado por jardins e casas típicas, onde realizamos nosso primeiro Plein Air da viagem.
Minha amiga Isabela Ructz e eu
Depois foi hora de conhecer o famoso jardim de Monet, sua casa e seu ateliê. Foi ali que ele viveu de 1883 até sua morte, em 1926, e criou grande parte de suas obras mais conhecidas, incluindo a série das Ninféias, inspirada no lago de seu próprio jardim.
A segunda cidade escolhida foi Fontainebleau, que abriga um dos palácios mais importantes da França e uma floresta que marcou profundamente a história da pintura de paisagem.
Muito antes do Impressionismo surgir, artistas como Jean-Baptiste-Camille Corot, Théodore Rousseau, Jean-François Millet e Charles-François Daubigny já percorriam a Floresta de Fontainebleau levando seus cavaletes para estudar a luz, a atmosfera e as mudanças da natureza diretamente diante da paisagem. Essa forma de pintar foi fundamental para o nascimento da pintura ao ar livre que mais tarde influenciaria os impressionistas.
Escolhi uma cena dentro do parque onde fica o Château de Fontainebleau e pintei uma paisagem com o lago refletindo toda a tranquilidade do lugar.
No dia seguinte seguimos para Barbizon, uma pequena cidade do interior próxima a Fontainebleau, conhecida por dar origem à Escola de Barbizon. Foi dali que surgiu um grupo de artistas que revolucionou a pintura de paisagem ao sair dos ateliês e trabalhar diretamente diante da natureza, abrindo caminho para o Impressionismo.
O grupo era formado por nomes como Théodore Rousseau, Jean-François Millet, Charles-François Daubigny, Narcisse Díaz de la Peña e Constant Troyon, que buscavam retratar a natureza de forma fiel, observando atentamente a luz e as mudanças do ambiente.
Também conheci o Musée de l'École de Barbizon, instalado na antiga hospedaria Auberge Ganne, onde os artistas se hospedavam durante suas temporadas de pintura. O lugar preserva pinturas feitas diretamente nas paredes, portas, móveis e até nos quartos onde eles dormiam. Caminhar por ali é quase como voltar ao século XIX.
Pintei duas cenas da Floresta de Barbizon, tentando captar a luz e a atmosfera do lugar. Como era maio, a natureza estava na transição entre a primavera e o verão. O clima estava agradável e, por alguns momentos, consegui experimentar um pouquinho da sensação que aqueles artistas viveram ali há mais de um século.
A terceira cidade escolhida para pintar foi Arles, onde viveu Vincent van Gogh, um dos principais nomes do Pós-Impressionismo. Embora ele não tenha feito parte do movimento impressionista, compartilhava com esses artistas o fascínio pela pintura ao ar livre, pela observação da luz e pela intensidade das cores.
Van Gogh viveu em Arles por aproximadamente 15 meses, entre fevereiro de 1888 e maio de 1889. Apesar do curto período, foi ali que produziu cerca de 300 pinturas e centenas de desenhos, incluindo algumas das obras mais importantes de sua carreira.
Conheci o famoso Café de la Nuit, retratado na pintura Terraço do Café à Noite, passei pela Ponte de Langlois, eternizada em diversas de suas obras, e visitei o rio Grand Rhône, cenário de uma das minhas pinturas favoritas: Noite Estrelada sobre o Ródano.
Minha pintura foi realizada em Les Alyscamps, uma antiga necrópole romana considerada uma das mais importantes do mundo antigo. Durante séculos, esse foi um dos principais cemitérios da Europa Ocidental e um local de peregrinação cristã. Hoje, uma longa alameda cercada por plátanos conduz o visitante entre sarcófagos romanos preservados, criando uma atmosfera única. O lugar encantou Van Gogh e Paul Gauguin, que o pintaram diversas vezes durante o período em que trabalharam juntos em Arles.
Escolhi uma perspectiva muito pintada por Van Gogh. Foi uma experiência maravilhosa. O dia estava bastante quente, mas a emoção de pintar naquele lugar fez tudo valer a pena.
A última cidade desta rota foi Aix-en-Provence, onde nasceu Paul Cézanne e também o escritor Émile Zola, seu grande amigo de infância.
Foi ali que Cézanne realizou grande parte de sua obra e, assim como em Arles, pude visitar vários dos lugares que aparecem em suas pinturas. Também tive a oportunidade de pintar em um dos pontos mais importantes de sua trajetória: o Terrain des Peintres.
O local foi criado em homenagem ao artista e oferece uma vista privilegiada da famosa montanha Sainte-Victoire, tema de mais de 80 pinturas de Cézanne. Hoje o espaço conta com painéis que mostram exatamente o enquadramento utilizado por ele, permitindo comparar a paisagem real com suas obras. Sentar ali para pintar foi uma experiência muito especial, como se por alguns instantes eu pudesse enxergar aquela paisagem através dos olhos de Cézanne.
Foi uma viagem muito especial. Além dessas cidades, passei por diversos outros lugares inspiradores ao longo do caminho, cada um com sua própria beleza e atmosfera.
Mais do que visitar locais históricos, essa viagem me permitiu viver a pintura de uma forma completamente diferente. Caminhar pelas mesmas ruas, observar a mesma luz e montar meu cavalete nos mesmos cenários onde Monet, Cézanne, Van Gogh e tantos outros artistas buscaram inspiração tornou essa experiência inesquecível.
Percebi que a pintura ao ar livre vai muito além da técnica. Ela exige tempo, observação e uma conexão verdadeira com o lugar. Cada tela que produzi acabou registrando muito mais do que uma paisagem: ela guarda a luz daquele momento, o clima, os sons e as emoções vividas durante a viagem.
Voltei dessa jornada ainda mais convencida de que pintar é uma forma de conhecer um lugar e a mim mesma profundamente. Quando nos sentamos diante de uma paisagem por algumas horas, somos obrigados a observar detalhes que normalmente passariam despercebidos. A luz muda, as sombras se transformam, o vento altera as cores e, aos poucos, criamos uma conexão com aquele lugar.
Essa foi apenas a primeira etapa dos meus caminhos pela pintura francesa. Ainda existem muitos destinos que pretendo conhecer, seguindo as pegadas dos grandes mestres que transformaram a maneira como enxergamos a paisagem. Afinal, a melhor forma de homenageá-los talvez seja exatamente essa: continuar pintando ao ar livre, mais de um século depois, deixando que cada lugar conte sua própria história através das pinceladas.

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